Sua empresa quer trabalhar no petróleo e gás?
Veja o caminho para se tornar fornecedor das grandes companhias do setor
De uma pequena empresa a um contrato com a indústria de petróleo: entenda documentos, homologações, certificações, capacidade técnica, segurança, compliance e os caminhos para entrar nessa cadeia
O setor de petróleo e gás brasileiro movimenta uma cadeia de fornecedores muito maior do que as empresas que aparecem diariamente nas notícias.
Por trás de uma plataforma, refinaria, terminal, gasoduto ou FPSO existe uma enorme rede formada por fabricantes, distribuidores, empresas de engenharia, manutenção, logística, alimentação, tecnologia, segurança, saúde, treinamento, inspeção, construção, automação e centenas de outros segmentos.
Isso significa que uma empresa não precisa fabricar uma plataforma ou perfurar um poço para fazer parte da indústria de petróleo e gás.
Uma pequena oficina especializada pode fazer parte dessa cadeia.
Uma empresa de software também.
Uma transportadora pode.
Uma empresa de uniformes pode.
Uma fabricante de equipamentos pode.
Uma empresa de alimentação pode.
Uma companhia de engenharia também.
Mas existe uma diferença enorme entre querer vender para o setor e estar preparado para ser contratado por ele.
E é justamente aqui que muitos empresários se perdem.
Não existe uma única "certificação para trabalhar com petróleo".
Na prática, existe uma jornada que combina regularidade empresarial, capacidade técnica, capacidade financeira, segurança, qualidade, integridade, requisitos específicos do produto ou serviço e, finalmente, qualificação e homologação junto aos compradores.
Na Petrobras, por exemplo, os fornecedores são avaliados conforme o tipo de fornecimento e as chamadas famílias de bens ou serviços. O processo oficial passa pela criação do perfil na Petronect, identificação da empresa, escolha das famílias, questionários de avaliação, análise e emissão do Certificado de Registro Cadastral, quando os critérios correspondentes são atendidos.
Então vamos entender esse caminho desde o início.
1. Antes de pensar na Petrobras, responda: o que exatamente sua empresa vende?
Esse deveria ser o primeiro passo de qualquer empresário.
Não comece perguntando:
"Como faço para vender para a Petrobras?"
Comece perguntando:
"O que exatamente eu consigo entregar para a cadeia de petróleo e gás?"
Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a estratégia.
Imagine algumas possibilidades:
- manutenção industrial;
- instrumentação;
- automação;
- válvulas;
- bombas;
- motores;
- materiais elétricos;
- cabos;
- EPIs;
- uniformes;
- produtos químicos;
- inspeção;
- caldeiraria;
- pintura industrial;
- andaimes;
- engenharia;
- construção e montagem;
- software;
- telecomunicações;
- segurança;
- serviços médicos;
- alimentação;
- hotelaria;
- treinamento;
- transporte;
- logística;
- equipamentos submarinos;
- serviços marítimos;
- consultoria;
- limpeza industrial;
- gestão de resíduos.
Cada uma dessas atividades possui riscos, normas e requisitos completamente diferentes.
Uma empresa que fornece alimentação não será avaliada exatamente da mesma maneira que uma fabricante de válvulas utilizadas em sistemas críticos.
Por isso, antes de investir dinheiro em certificações, o empresário precisa definir seu mercado.
2. Descubra em qual parte da cadeia você realmente quer entrar
Existe outro erro bastante comum:
achar que participar da indústria significa necessariamente possuir contrato direto com uma operadora.
Não significa.
Uma maneira simplificada de enxergar essa cadeia seria:
OPERADORA
↓
GRANDES CONTRATADAS / EPC / EPCI
↓
EMPRESAS ESPECIALIZADAS
↓
FORNECEDORES E SUBFORNECEDORES
↓
FABRICANTES E PRESTADORES LOCAIS
Uma pequena empresa pode começar vários degraus abaixo da operadora e ainda assim estar participando de um grande projeto de petróleo.
A própria Shell Brasil explica aos potenciais fornecedores que nem todas as contratações são administradas diretamente pela companhia. Algumas demandas podem ser direcionadas para grandes fornecedores que, por sua vez, realizam subcontratações. A empresa também deixa claro que simplesmente registrar interesse não significa estar automaticamente pré-qualificado.
Isso cria uma estratégia extremamente interessante para empresas menores:
em vez de tentar chegar diretamente à operadora no primeiro contrato, procure descobrir quem já fornece para ela.
3. A primeira grande barreira: documentação
Antes de impressionar alguém com seu produto, sua empresa precisa existir de maneira organizada perante o mercado.
Isso normalmente significa manter em ordem, conforme a atividade e a contratação:
- CNPJ;
- contrato social e alterações;
- CNAEs compatíveis;
- inscrições fiscais aplicáveis;
- certidões;
- documentos societários;
- regularidade tributária;
- documentação trabalhista e previdenciária aplicável;
- dados bancários;
- licenças necessárias à atividade;
- registros em conselhos profissionais quando aplicáveis;
- autorizações específicas exigidas pela legislação ou pelo contrato.
Um detalhe merece atenção especial:
CNAE importa.
A atividade declarada pela empresa precisa ser compatível com aquilo que ela pretende fornecer.
Na própria orientação da Transpetro para determinados cadastros de pequenos serviços e materiais, as famílias informadas devem ser compatíveis com o CNAE da empresa.
Ou seja:
não adianta sua apresentação comercial dizer que você executa determinada atividade se juridicamente sua empresa não está preparada para isso.
4. Sua empresa precisa provar que sabe executar o serviço
Aqui chegamos à capacidade técnica.
Imagine duas empresas dizendo:
"Eu consigo fazer manutenção desse equipamento."
Uma simplesmente afirma que consegue.
A outra apresenta:
atestados de capacidade técnica, contratos anteriores, equipe especializada, procedimentos, registros fotográficos, documentação dos equipamentos utilizados e histórico de execução.
Qual delas oferece menos risco para o comprador?
É exatamente esse raciocínio que está por trás da qualificação técnica.
Dependendo da contratação, podem ser importantes documentos e evidências como:
- atestados de capacidade técnica;
- CAT, quando aplicável;
- ART ou outros registros de responsabilidade técnica, quando aplicáveis;
- experiência anterior;
- currículos da equipe;
- certificados dos profissionais;
- relação de equipamentos;
- instalações;
- procedimentos de execução;
- procedimentos de inspeção;
- rastreabilidade;
- histórico de desempenho;
- contratos executados anteriormente.
E isso explica uma dificuldade clássica das empresas novas:
"Como comprovar experiência se ninguém ainda me deu uma oportunidade?"
Uma das respostas está justamente na subcontratação.
O primeiro contrato não precisa ser gigantesco.
Ele precisa ser executado corretamente.
5. Começar pequeno pode ser uma estratégia, não uma fraqueza
Esse ponto é importantíssimo.
A própria Transpetro possui modalidade de Registro Simplificado para fornecimento de pequenos serviços e bens em determinadas contratações por valor. Seu Canal do Fornecedor possui orientações específicas para empresas interessadas em fornecer materiais e serviços.
Isso ajuda a desmontar um mito:
petróleo e gás não é um mercado exclusivamente para empresas gigantes.
Naturalmente, determinados contratos exigem estrutura financeira, técnica e operacional que uma pequena empresa simplesmente não possui.
Mas a cadeia possui diversos níveis.
Uma empresa pode começar atendendo uma necessidade menor.
Depois consegue um atestado.
Depois outro contrato.
Depois aumenta a equipe.
Depois implementa um sistema de gestão.
Depois conquista uma certificação.
Depois passa por outra homologação.
E gradualmente aumenta o tamanho dos contratos que consegue disputar.
6. Capacidade financeira: ganhar o contrato pode ser apenas o começo do problema
Imagine uma empresa ganhando um contrato de R$ 10 milhões.
Parece fantástico.
Mas ela precisa imediatamente contratar dezenas de profissionais, comprar equipamentos, mobilizar uma estrutura, contratar transporte, adquirir materiais e pagar salários.
E o primeiro recebimento ainda não aconteceu.
De onde virá o dinheiro?
É por isso que grandes contratantes analisam capacidade econômico-financeira.
O empresário precisa conhecer números como:
- faturamento;
- patrimônio líquido;
- liquidez;
- endividamento;
- capital de giro;
- fluxo de caixa;
- capacidade de mobilização;
- necessidade de financiamento.
Crescimento sem capital de giro pode destruir uma empresa.
No petróleo e gás, ganhar um contrato maior do que sua capacidade operacional pode ser tão perigoso quanto não ganhar contrato nenhum.
7. ISO 9001: qualidade
Chegamos às certificações mais conhecidas.
A ISO 9001 trata de sistemas de gestão da qualidade.
Ela ajuda a estruturar processos para que a empresa consiga entregar resultados de maneira controlada e consistente.
Na prática, isso envolve temas como documentação, processos, responsabilidades, controle, avaliação, tratamento de não conformidades e melhoria contínua.
Mas existe uma informação essencial:
não significa que toda empresa que deseja trabalhar no petróleo precise automaticamente possuir ISO 9001.
Os requisitos dependem da família de fornecimento, criticidade, comprador e contratação.
Por isso, o empresário deve descobrir primeiro os requisitos do mercado que pretende atender e somente depois elaborar seu plano de certificação.
8. ISO 14001: gestão ambiental
A ISO 14001 está relacionada ao sistema de gestão ambiental.
Para atividades industriais com potenciais impactos ambientais, possuir processos estruturados nessa área pode ganhar enorme importância.
A empresa precisa conhecer seus impactos, obrigações e controles ambientais.
Em determinados contratos, isso pode envolver ainda:
- gestão de resíduos;
- produtos químicos;
- emissões;
- armazenamento;
- transporte;
- destinação;
- resposta a emergências;
- licenciamento ambiental.
Mais uma vez:
a exigência dependerá da atividade.
9. ISO 45001: segurança e saúde ocupacional
Em uma indústria na qual um acidente pode causar consequências humanas, ambientais e financeiras enormes, segurança possui peso muito elevado.
A ISO 45001 estrutura um sistema de gestão de saúde e segurança ocupacional.
Mas possuir um certificado pendurado na parede não resolve tudo.
Grandes contratantes podem analisar também o desempenho real da empresa.
Isso pode incluir:
- histórico de acidentes;
- treinamentos;
- identificação de perigos;
- avaliação de riscos;
- investigação de ocorrências;
- planos de ação;
- procedimentos;
- gestão de terceiros;
- indicadores de segurança.
A própria documentação cadastral da Petrobras disponibiliza, entre outros modelos, relatório de acidentes, planilha de aspectos, impactos, perigos e riscos, plano anual de treinamento e documentos relacionados a requisitos legais.
Isso mostra uma coisa importante:
segurança não pode existir apenas no PowerPoint comercial da empresa.
Ela precisa existir na operação.
10. E as Normas Regulamentadoras?
Aqui entramos nas famosas NRs.
Dependendo da atividade, diferentes normas podem ser aplicáveis.
Alguns exemplos conhecidos no ambiente industrial incluem:
NR-10: segurança em instalações e serviços em eletricidade.
NR-20: segurança e saúde no trabalho com inflamáveis e combustíveis.
NR-33: segurança e saúde em espaços confinados.
NR-35: trabalho em altura.
NR-37: segurança e saúde em plataformas de petróleo.
Mas isso não significa que basta mandar todos os funcionários fazerem todos os cursos possíveis.
Novamente:
a capacitação precisa estar relacionada à função, ao risco e à atividade que será executada.
11. Responsável técnico: sua atividade exige?
Outra pergunta essencial:
"Minha empresa executa uma atividade regulamentada?"
Dependendo do serviço, poderá ser necessário possuir profissional legalmente habilitado e registros de responsabilidade técnica.
Isso pode envolver diferentes conselhos e profissões conforme a atividade executada.
Por isso, antes de entrar no mercado, descubra:
Quem responde tecnicamente pelo meu serviço?
Minha empresa precisa estar registrada em algum conselho?
Quais responsabilidades precisam ser formalizadas?
12. API, ASME, IEC e outras normas: quando o nível técnico aumenta
Agora entramos no universo dos fornecimentos especializados.
Determinados equipamentos utilizados no petróleo e gás precisam atender normas técnicas específicas.
É aqui que podem aparecer referências como:
API;
ASME;
ASTM;
IEC;
ABNT;
AMPP;
entre diversas outras.
Mas é fundamental não transformar essas siglas em uma lista de compras.
Uma empresa de alimentação offshore não precisa das mesmas certificações de uma fabricante de equipamentos utilizados em um poço.
Uma empresa de software não terá necessariamente os mesmos requisitos de uma fabricante de vaso de pressão.
Uma empresa de instrumentação terá necessidades diferentes de uma empresa de hotelaria marítima.
A regra é simples:
quanto maior a criticidade do fornecimento, mais rigorosos tendem a ser os controles técnicos.
13. Compliance deixou de ser "coisa de empresa grande"
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da cadeia moderna de fornecedores.
Uma empresa pode ser tecnicamente excelente e ainda assim representar risco comercial.
Por isso as grandes companhias passaram a analisar integridade.
Na Petrobras existe a Due Diligence de Integridade, conhecida como DDI.
Nesse processo são analisadas informações relacionadas à estrutura organizacional, relacionamento com agentes públicos e políticos, histórico de integridade, relacionamento com terceiros e programa de integridade.
O resultado é utilizado para atribuição do Grau de Risco de Integridade, o GRI, classificado como baixo, médio ou alto. A Petrobras informa ainda que Direitos Humanos e Proteção de Dados Pessoais foram incorporados ao questionário de DDI.
E existe um detalhe extremamente importante para quem participa de licitações:
se o licitante ainda não possuir GRI atribuído, a Petrobras prevê que, na fase de habilitação, seja preenchido eletronicamente o questionário de DDI e apresentada a documentação comprobatória correspondente.
Isso significa que o empresário deveria começar a estruturar compliance antes de alguém pedir.
14. O que uma pequena empresa pode fazer em compliance?
Não é necessário copiar a estrutura de compliance de uma multinacional.
O programa deve ser proporcional ao porte e aos riscos da empresa.
Mas alguns fundamentos podem ser extremamente importantes:
- Código de Ética e Conduta;
- política anticorrupção;
- regras sobre brindes e presentes;
- conflito de interesses;
- relacionamento com agentes públicos;
- controles financeiros;
- análise de terceiros;
- proteção de dados;
- treinamento dos funcionários;
- mecanismo de denúncia proporcional à estrutura;
- investigação e tratamento de irregularidades.
A ideia central é simples:
a empresa precisa demonstrar que sabe com quem trabalha, como toma decisões e como evita práticas inadequadas.
15. ASG também chegou à cadeia de fornecedores
Ambiental, Social e Governança não está limitado às operadoras.
A Petrobras possui atualmente um Programa ASG para Fornecedores aplicável a fornecedores atuais e potenciais, nacionais e estrangeiros, independentemente do porte ou setor. O programa reúne expectativas relacionadas aos pilares ambiental, social e de governança dentro da cadeia de suprimentos.
Isso aponta para uma tendência importante:
no futuro, simplesmente entregar barato poderá ser cada vez menos suficiente.
As empresas também precisarão demonstrar como entregam.
16. Conteúdo local: um assunto que o fornecedor brasileiro precisa conhecer
Existe ainda uma particularidade extremamente importante da indústria brasileira: conteúdo local.
Segundo a ANP, conteúdo local representa a proporção do valor de bens produzidos e serviços prestados no país em relação ao valor total utilizado para determinada atividade de exploração e produção.
Determinados contratos de E&P possuem compromissos mínimos de conteúdo local e, conforme as regras aplicáveis ao contrato, determinados fornecimentos precisam ter sua nacionalização comprovada.
A certificação é realizada por organismos acreditados para essa finalidade.
Isso não significa que qualquer pequena empresa precise sair amanhã procurando um certificado de conteúdo local.
Mas empresas que fornecem bens e serviços relacionados a projetos sujeitos a essas obrigações precisam entender se seu fornecimento está enquadrado e quais documentos deverão manter.
A ANP mantém inclusive um painel público de certificações de conteúdo local que permite analisar escopos mais demandados, fornecedores recorrentes e percentuais de nacionalização.
E existe uma discussão atual especialmente interessante para a indústria nacional: em 2026, a ANP abriu consulta prévia sobre regras relacionadas à igualdade de oportunidade e direito de preferência para fornecedores brasileiros. Os contratos de E&P preveem que operadores assegurem condições de participação aos fornecedores brasileiros e preferência quando as propostas forem equivalentes ou mais vantajosas em preço, prazo e qualidade, conforme as regras aplicáveis.
Para a indústria nacional, acompanhar esse assunto é estratégico.
17. Como funciona o caminho na Petrobras?
De maneira didática, podemos resumir o processo cadastral da Petrobras em cinco grandes passos oficiais:
PASSO 1
Criar o perfil para acessar a Petronect.
PASSO 2
Preencher os dados de identificação da empresa.
Nesse momento são informados dados básicos, bancários, características de fornecimento e as famílias de bens e serviços nas quais a empresa pretende concorrer.
PASSO 3
Responder aos questionários de avaliação.
PASSO 4
Acompanhar o resultado das avaliações.
PASSO 5
Emissão do Certificado de Registro Cadastral, quando atendidos os critérios correspondentes.
A Petrobras informa ainda diferentes status possíveis para as famílias cadastradas, incluindo Declaração de Interesse, Aprovado, Qualificado Tecnicamente, Reprovado e Cancelado.
Um detalhe muito importante:
cadastro não significa contrato.
Da mesma forma:
CRC não significa que amanhã chegará um pedido de compra.
O cadastro prepara a empresa para participar dos processos correspondentes e ajuda nas etapas de habilitação e pré-qualificação.
18. E o que é uma "família" de fornecimento?
Imagine uma gigantesca prateleira virtual organizando tudo o que uma grande companhia compra.
Cada tipo de bem ou serviço pertence a determinada categoria.
Na Petrobras, essas categorias são tratadas como famílias de fornecimento.
Isso é muito importante porque os critérios de avaliação são definidos conforme aquilo que a empresa pretende fornecer.
Portanto:
não tente ser fornecedor de tudo.
Uma estratégia mais inteligente é dominar profundamente algumas famílias relacionadas à verdadeira competência da empresa.
19. Pré-qualificação também pode existir
Alguns objetos são tecnicamente complexos demais para que a avaliação comece somente depois da abertura de uma disputa.
Por isso podem existir processos de pré-qualificação.
A Petrobras explica que utiliza esse procedimento auxiliar antes da contratação quando o objeto exige análise técnica mais detalhada.
Para fabricantes de equipamentos especializados, por exemplo, isso pode ser decisivo.
20. Você não precisa vender somente para a Petrobras
Talvez essa seja uma das maiores oportunidades ignoradas pelos empresários.
O mercado brasileiro possui:
- operadoras;
- empresas de perfuração;
- empresas de FPSO;
- empresas de apoio marítimo;
- EPCistas;
- fabricantes;
- integradoras;
- empresas de manutenção;
- empresas de construção e montagem;
- estaleiros;
- empresas submarinas;
- empresas de inspeção;
- empresas de logística;
- distribuidoras;
- refinarias;
- terminais;
- fornecedores de primeiro nível;
- fornecedores de segundo e terceiro níveis.
A estratégia comercial deveria mapear toda essa cadeia.
Se uma empresa não consegue entrar pela porta principal, talvez existam vinte outras portas.
21. Descubra quem ganhou o contrato
Aqui está uma estratégia comercial extremamente poderosa.
Em vez de acompanhar apenas:
"Quem está comprando?"
acompanhe também:
"Quem acabou de ganhar um grande contrato?"
Imagine que uma companhia acaba de conquistar um contrato bilionário para manutenção de plataformas.
Essa empresa poderá precisar contratar:
mão de obra;
ferramentas;
uniformes;
EPIs;
transporte;
treinamento;
andaimes;
instrumentação;
logística;
alimentação;
equipamentos;
inspeção;
software;
serviços especializados.
Ou seja:
o contrato de uma empresa pode se transformar em dezenas de oportunidades para outras.
Esse é o raciocínio que o pequeno e médio empresário precisa desenvolver.
22. Não compre certificações antes de conhecer seu cliente
Talvez este seja o conselho mais importante desta matéria.
Não faça:
ISO 9001.
Depois ISO 14001.
Depois ISO 45001.
Depois outra certificação.
Depois outra.
E só então pergunte:
"Agora, para quem eu vendo?"
Faça exatamente o contrário.
O caminho deveria ser:
MERCADO
↓
CLIENTE
↓
PRODUTO OU SERVIÇO
↓
FAMÍLIA DE FORNECIMENTO
↓
REQUISITOS
↓
ANÁLISE DOS GAPS DA EMPRESA
↓
ADEQUAÇÕES
↓
CERTIFICAÇÕES REALMENTE NECESSÁRIAS
↓
HOMOLOGAÇÃO
↓
OPORTUNIDADE
↓
PROPOSTA
↓
CONTRATO
Isso pode economizar meses e muito dinheiro.
23. Faça um diagnóstico da sua empresa
Antes de procurar uma grande contratante, o empresário deveria conseguir responder:
Jurídico
Minha documentação está regular?
Fiscal
Minhas certidões estão atualizadas?
Financeiro
Tenho capital para executar um contrato antes de receber?
Técnico
Consigo provar que sei fazer?
Pessoas
Minha equipe possui as qualificações necessárias?
Segurança
Tenho procedimentos e indicadores reais?
Qualidade
Meus processos estão documentados e controlados?
Ambiental
Conheço e controlo meus impactos?
Integridade
Tenho regras claras de compliance?
Comercial
Sei exatamente quem compra aquilo que vendo?
Homologação
Estou cadastrado nos portais corretos?
Estratégia
Estou procurando somente operadoras ou toda a cadeia?
Se a empresa não consegue responder a essas perguntas, provavelmente ainda existem gaps antes de disputar determinados contratos.
24. Um exemplo: pequena empresa de instrumentação
Imagine uma empresa com dez funcionários.
Ela trabalha com instrumentação industrial.
O empresário quer entrar no offshore.
Em vez de tentar imediatamente disputar um enorme contrato direto com uma operadora, ele poderia:
Primeiro organizar documentação e CNAEs.
Depois mapear exatamente quais serviços consegue executar.
Organizar procedimentos.
Treinar e qualificar a equipe.
Estruturar segurança.
Levantar os trabalhos já realizados.
Conseguir atestados.
Mapear empresas de manutenção e integradoras.
Cadastrar-se nos portais dessas empresas.
Participar de pequenas cotações.
Executar bem.
Conseguir novos atestados.
Melhorar sua estrutura.
Buscar as certificações que o mercado realmente exige.
Passar por homologações maiores.
E aumentar progressivamente o tamanho dos contratos.
Talvez demore.
Mas agora existe uma estratégia.
25. O contrato não termina quando você ganha
Esse é outro ponto fundamental.
Depois da contratação começa uma nova avaliação:
desempenho.
Prazo.
Qualidade.
Segurança.
Documentação.
Relacionamento.
Conformidade.
Resposta a problemas.
Uma empresa que executa mal pode destruir em poucos meses uma reputação construída durante anos.
Uma empresa que executa muito bem o primeiro contrato transforma aquele trabalho em credencial para o próximo.
26. O verdadeiro ativo é o histórico
No início, o empresário pensa:
"Eu preciso conseguir um contrato."
Depois percebe que o objetivo deveria ser:
"Eu preciso construir histórico."
Porque histórico gera:
atestados;
referências;
faturamento;
experiência;
indicadores;
relacionamentos;
capacidade técnica comprovada;
confiança.
E confiança reduz o risco percebido pelo próximo comprador.
27. O mapa para entrar no petróleo e gás
Se tivéssemos que resumir toda esta matéria em uma sequência, seria esta:
- Defina exatamente o que você vende.
- Escolha em qual parte da cadeia pretende atuar.
- Regularize juridicamente a empresa.
- Confira CNAEs, licenças e registros.
- Organize sua documentação fiscal e trabalhista.
- Estruture financeiramente a empresa.
- Comprove capacidade técnica.
- Estruture qualidade.
- Estruture segurança, saúde e meio ambiente.
- Identifique as NRs aplicáveis.
- Verifique necessidade de responsável técnico.
- Identifique normas técnicas específicas do produto.
- Descubra quais certificações realmente são exigidas.
- Estruture compliance.
- Prepare-se para due diligence.
- Conheça requisitos de ASG.
- Verifique se conteúdo local se aplica ao fornecimento.
- Cadastre-se nos portais das empresas-alvo.
- Escolha corretamente as famílias de fornecimento.
- Passe pelos processos de qualificação e homologação.
- Monitore licitações e oportunidades.
- Monitore também quem ganhou grandes contratos.
- Procure oportunidades como subfornecedor.
- Comece pelo contrato que sua estrutura consegue executar.
- Entregue muito bem.
- Consiga atestados e referências.
- Reinvista na estrutura.
- Suba gradualmente na cadeia.
Afinal, uma pequena empresa consegue entrar no petróleo e gás?
Sim.
Mas provavelmente não da maneira que muitos imaginam.
Talvez o primeiro cliente não seja uma Petrobras ou uma grande operadora.
Talvez seja a empresa que trabalha para outra empresa que trabalha para uma operadora.
E não existe absolutamente nada de errado nisso.
É assim que cadeias industriais são construídas.
Uma pequena empresa pode começar fornecendo uma solução muito específica.
Depois conquistar reputação.
Depois aumentar capacidade.
Depois conquistar certificações.
Depois passar por novas homologações.
Depois assumir contratos maiores.
E, anos depois, aquela pequena fornecedora pode ter se transformado em uma empresa relevante dentro da indústria.
O petróleo e gás brasileiro não é formado apenas pelas empresas que extraem petróleo.
É formado por milhares de empresas que tornam essa produção possível.
O próximo grande fornecedor dessa indústria talvez ainda nem tenha entrado nela.
Pode ser uma empresa pequena.
Pode estar no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, São Paulo ou em qualquer outra região do país.
Pode possuir dez funcionários.
Pode nunca ter colocado ninguém em uma plataforma.
Mas talvez tenha tecnologia, conhecimento ou uma solução que essa indústria precisa.
O primeiro passo não é tentar parecer uma empresa gigante.
O primeiro passo é descobrir onde você consegue gerar valor, entender os requisitos desse mercado e preparar sua empresa para entregar.
Porque existe uma enorme diferença entre querer trabalhar no petróleo e estar preparado para trabalhar no petróleo.
E é essa preparação que pode transformar uma empresa desconhecida em uma fornecedora da maior cadeia industrial do Brasil.
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Sobre o autor

Diretor de criação
Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..
