Petrobras leva experiência do pré-sal ao México em aposta que pode revelar uma nova província gigante de petróleo
Pemex e Petrobras miram rochas de 160 milhões de anos sob a Baía de Campeche. Uma descoberta poderia abrir uma nova fronteira petrolífera no Golfo do México e ajudar a estatal mexicana a enfrentar o declínio de sua produção.
Imagine perfurar quilômetros abaixo do fundo do mar, atravessar uma enorme camada de sal submetida a condições extremas de pressão e temperatura e chegar a rochas formadas há aproximadamente 160 milhões de anos.
É justamente nesse território geológico que Petrobras e Pemex estão colocando seus conhecimentos à prova.
As duas maiores companhias petrolíferas da América Latina começaram a avaliar uma das apostas exploratórias mais ousadas do Golfo do México: investigar o potencial de formações jurássicas profundamente soterradas na região de Campeche, no lado mexicano do Golfo.
O risco é enorme.
Mas, se houver uma descoberta relevante, a recompensa também poderá ser.
A possibilidade levantada por especialistas é que essa exploração ajude a revelar uma nova e importante província de petróleo e gás em águas mexicanas.
O México quer descobrir se existe um “pré-sal mexicano”
A história ganhou força em 23 de junho de 2026, quando Petrobras e Pemex assinaram um Memorando de Entendimento para estabelecer uma cooperação estratégica e técnica na indústria de hidrocarbonetos.
O acordo prevê avaliação de oportunidades em Exploração e Produção, revitalização de campos maduros, reprocessamento sísmico e projetos em águas profundas e ultraprofundas.
E existe um ponto particularmente importante no documento: o potencial pré-sal do Golfo do México.
Na ocasião, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, deixou claro o interesse brasileiro no país.
“Temos interesse na exploração no Golfo do México mexicano, no incremento da produção de campos maduros e em processos industriais de refino, petroquímica e fertilizantes”, afirmou.
Já o diretor-geral da Pemex, Juan Carlos Carpio Fragoso, destacou explicitamente entre as oportunidades o aumento da produção em águas profundas e o “potencial pré-sal no Golfo do México”.
É importante destacar que o Memorando de Entendimento não representa, por enquanto, uma joint venture nem um compromisso vinculante de investimento. Ele estabelece a estrutura para que as empresas estudem e eventualmente desenvolvam oportunidades em conjunto.
A Petrobras entra onde poucos conseguem entrar
É justamente aqui que a presença brasileira ganha dimensão estratégica.
A Petrobras acumulou quase duas décadas de experiência desde as grandes descobertas do pré-sal brasileiro iniciadas em 2006.
O desafio não é simplesmente encontrar uma estrutura geológica promissora.
É conseguir interpretá-la, perfurá-la e, caso exista uma descoberta comercial, desenvolver um sistema capaz de produzir petróleo de maneira segura e economicamente competitiva.
No Brasil, essa capacidade ajudou a transformar profundamente a indústria petrolífera nacional.
Agora, parte desse conhecimento poderá ser utilizada no Golfo do México.
Segundo a World Oil, equipes das duas empresas começaram nas últimas semanas a avaliar dados sísmicos e outras informações geológicas da região mexicana para analisar o potencial dessa nova fronteira.
O geólogo Pedro Zalan, que trabalhou durante 34 anos em projetos de exploração da Petrobras, afirmou que a geologia do lado mexicano do Golfo apresenta características particularmente favoráveis à acumulação de petróleo.
Mas isso está longe de significar que uma descoberta esteja garantida.
Outras regiões do mundo tentaram repetir o sucesso do pré-sal brasileiro. Projetos exploratórios em países como Angola, Gabão e República do Congo não conseguiram reproduzir, até agora, resultados comparáveis aos alcançados no Brasil.
Pemex já tentou chegar lá
Existe outro detalhe fascinante nessa história.
Essa não é uma fronteira completamente desconhecida para a Pemex.
Em 2018, a companhia mexicana realizou uma perfuração exploratória na região de Campeche e ultrapassou 7.800 metros abaixo do fundo do mar, penetrando a camada de sal.
O poço acabou sendo considerado improdutivo.
Mas um poço exploratório sem produção comercial não significa necessariamente que todas as informações obtidas tenham sido negativas.
Os dados sísmicos, geológicos, petrofísicos e operacionais adquiridos durante uma perfuração desse porte podem ajudar a reconstruir o modelo geológico de toda uma região.
E aparentemente Campeche continuou despertando interesse.
O geólogo e consultor Mark Rowan, especialista em descobertas profundas no Golfo do México, observou que o fato de a Pemex continuar olhando para essa fronteira sugere que os resultados anteriores não eliminaram completamente seu potencial.
Agora entra uma empresa que conhece muito bem um dos maiores desafios da indústria offshore mundial:
atravessar sal para encontrar petróleo.
Rochas da época dos dinossauros
A dimensão geológica dessa aposta impressiona.
As formações investigadas têm aproximadamente 160 milhões de anos e pertencem ao período Jurássico.
Estamos falando de rochas formadas quando os dinossauros ainda dominavam o planeta.
Essas estruturas são significativamente mais antigas e estão muito mais profundas do que muitas das formações atualmente produtoras no lado norte-americano do Golfo do México.
E existe uma razão para tanto interesse.
Algumas dessas formações incluem rochas geradoras, justamente aquelas nas quais matéria orgânica acumulada durante milhões de anos foi submetida a pressão e temperatura até originar hidrocarbonetos.
O problema é descobrir se esse sistema petrolífero funcionou de maneira favorável.
É preciso ter geração.
Migração.
Reservatório.
Armadilha.
Selamento.
Preservação.
E tudo isso precisa ocorrer na configuração correta para permitir uma acumulação comercial.
É por isso que essa exploração representa a essência do conceito “alto risco, alto retorno”.
O que está em jogo para a Pemex
Para a Petrobras, o México representa uma oportunidade de internacionalização de uma competência tecnológica desenvolvida durante décadas no offshore brasileiro.
Para a Pemex, a situação é muito mais urgente.
A companhia enfrenta uma combinação difícil de declínio de produção, necessidade de investimentos e elevado endividamento.
No segundo trimestre de 2026, Pemex e seus parceiros produziram aproximadamente 1,66 milhão de barris por dia de petróleo e condensado.
A meta do governo mexicano é de 1,8 milhão de barris por dia.
Ao mesmo tempo, o lucro líquido da companhia no trimestre caiu 69,7% em comparação com o mesmo período do ano anterior. A dívida financeira estava em aproximadamente US$ 77,5 bilhões no fim de junho, mesmo após uma redução anual de 9,1%.
A Moody's já havia alertado em maio que o desempenho operacional continuava sendo uma das principais fontes de pressão sobre a qualidade de crédito da Pemex, destacando o declínio de campos maduros, o subinvestimento histórico e a necessidade contínua de apoio financeiro do governo mexicano.
É nesse contexto que Campeche ganha uma importância muito maior.
Não estamos falando simplesmente de mais um poço exploratório.
Estamos falando da possibilidade de encontrar uma nova fonte de recursos capaz de modificar as perspectivas de longo prazo da maior petrolífera mexicana.
Brasil pode exportar algo muito maior que petróleo
Existe ainda uma leitura importante para o Brasil.
Durante décadas, discutimos o país como exportador de petróleo.
Mas existe outro ativo brasileiro sendo exportado para o mundo:
conhecimento.
A experiência adquirida na Bacia de Santos, na Bacia de Campos e no desenvolvimento do pré-sal colocou a engenharia offshore brasileira diante de alguns dos maiores desafios tecnológicos da indústria mundial.
Se a Petrobras conseguir utilizar esse conhecimento para ajudar a abrir uma nova fronteira petrolífera no México, o impacto ultrapassará a descoberta de petróleo.
Será uma demonstração internacional da capacidade tecnológica construída pela indústria brasileira.
E se houver outro “pré-sal” do outro lado do Golfo?
Ainda é cedo para saber.
Não existe, até o momento, confirmação de uma descoberta comercial gigante nessa nova fronteira.
Também não existe garantia de que a geologia mexicana reproduzirá o extraordinário sucesso encontrado no litoral brasileiro.
Exploração funciona exatamente assim.
Antes da descoberta existe incerteza.
Antes do primeiro óleo existem anos de estudos, sísmica, interpretação geológica, perfuração, avaliação, testes, engenharia e bilhões em investimentos potenciais.
Mas as maiores fronteiras petrolíferas da história começaram com uma pergunta geológica.
E hoje Petrobras e Pemex estão fazendo uma pergunta gigantesca sob o Golfo do México:
E se existir um novo pré-sal escondido sob Campeche?
Se a resposta vier em forma de uma grande descoberta, o México poderá ganhar uma nova fronteira petrolífera.
A Pemex poderá encontrar um ativo capaz de contribuir para reverter anos de queda na produção.
E a Petrobras poderá mostrar que o conhecimento desenvolvido no pré-sal brasileiro não transformou apenas o Brasil.
Ele pode ajudar a transformar a exploração de petróleo em outros países.
O que começou há quase duas décadas sob milhares de metros de água, rocha e sal na costa brasileira poderá estar prestes a atravessar fronteiras.
Do pré-sal brasileiro para as profundezas do México.
E, mais uma vez, a indústria offshore pode estar diante de uma daquelas apostas em que um único poço é capaz de mudar o mapa mundial do petróleo.
Matéria especial para o Mundo Offshore.
Sobre o autor
Juliana Frasson é colaborador do Mundo Offshore.
