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FOZ DO AMAZONAS: DEPOIS DE MAIS DE UMA DÉCADA DE LICENCIAMENTO, O IBAMA DEU O SINAL VERDE À PETROBRAS

Felipe Regiole•
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FOZ DO AMAZONAS: DEPOIS DE MAIS DE UMA DÉCADA DE LICENCIAMENTO, O IBAMA DEU O SINAL VERDE À PETROBRAS

Petrobras passou por estudos, audiências, negativa de licença, novas exigências e uma avaliação operacional antes de receber autorização para perfurar o poço Morpho. Agora, com hidrocarbonetos identificados, a disputa ambiental e judicial entra em uma nova fase.

A história da exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas não começou com uma sonda chegando ao Amapá.

Começou mais de uma década antes.

O processo de licenciamento do bloco FZA-M-59 tramita no Ibama desde abril de 2014. O pedido foi iniciado pela BP Energy do Brasil, então operadora do bloco. O EIA/Rima foi protocolado em março de 2015 e, em novembro de 2017, foram realizadas audiências públicas em Belém, Oiapoque e Macapá. Posteriormente, a Petrobras assumiu os direitos exploratórios e o processo de licenciamento. Serviços e Informações do Brasil

E é justamente essa longa trajetória que precisa ser compreendida para analisar o que está acontecendo agora na Margem Equatorial.


EM 2023, O IBAMA DISSE NÃO

Um dos momentos mais importantes dessa história aconteceu em 17 de maio de 2023.

Naquele momento, o Ibama indeferiu o pedido da Petrobras para a atividade de perfuração marítima no FZA-M-59.

O parecer técnico apontava que permaneciam inconsistências nos estudos ambientais apresentados e recomendou o indeferimento. A decisão também colocou no centro da discussão a necessidade de uma Avaliação Ambiental de Área Sedimentar, a AAAS. Serviços e Informações do Brasil

Mas a negativa de 2023 não encerrou a história.

A Petrobras prosseguiu buscando atender às exigências do processo de licenciamento.

E isso é fundamental para compreender o que aconteceu depois.


A PETROBRAS TEVE QUE DEMONSTRAR QUE ESTAVA PREPARADA

O processo avançou até chegar a uma etapa particularmente importante: a Avaliação Pré-Operacional, conhecida como APO.

Não se tratava simplesmente de apresentar documentos.

A capacidade de resposta da operação seria colocada à prova em uma simulação realizada em condições operacionais.

Segundo informações oficiais, a APO ocorreu em agosto de 2025. O exercício serviu para avaliar a estrutura disponibilizada pela Petrobras e a eficácia do plano de resposta a emergências.

Em setembro daquele ano, o Ibama aprovou a Avaliação Pré-Operacional. O Ministério de Minas e Energia classificou a APO como a última etapa antes da licença ambiental para a perfuração. Serviços e Informações do Brasil

Esse momento representa uma das grandes viradas dessa história.


O IBAMA APROVOU A AVALIAÇÃO PRÉ-OPERACIONAL

A aprovação da APO demonstrou que o processo havia avançado significativamente em relação ao cenário que levou à negativa de 2023.

Ainda houve recomendações e ajustes ambientais no decorrer do processo.

Mas, depois de anos de análises, complementações e avaliações, chegou o momento decisivo.


20 DE OUTUBRO DE 2025

O IBAMA CONCEDE A LICENÇA DE OPERAÇÃO PARA A PERFURAÇÃO DO POÇO MORPHO

A Petrobras comunicou oficialmente naquele dia que havia recebido do Ibama a licença ambiental para perfurar um poço exploratório no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá.

O poço está localizado aproximadamente 175 quilômetros da costa e quase 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas. RAD

No comunicado ao mercado, a Petrobras afirmou ter atendido aos requisitos estabelecidos pelo Ibama e cumprido o processo de licenciamento ambiental. A empresa destacou ainda que a APO havia permitido ao órgão ambiental verificar sua capacidade operacional e a eficácia do plano de resposta à emergência. RAD

Isso muda completamente uma interpretação simplista de que a empresa simplesmente decidiu perfurar uma área ambientalmente sensível.

HOUVE UM PROCESSO DE LICENCIAMENTO.

HOUVE EXIGÊNCIAS.

HOUVE UMA NEGATIVA EM 2023.

HOUVE NOVAS AVALIAÇÕES.

HOUVE UMA SIMULAÇÃO OPERACIONAL.

E, DEPOIS DESSE PROCESSO, O ÓRGÃO AMBIENTAL FEDERAL CONCEDEU A LICENÇA.


LICENÇA PARA PESQUISAR NÃO É LICENÇA PARA PRODUZIR

Existe outro ponto essencial.

A licença concedida não significava autorização para começar a produzir petróleo comercialmente.

O objetivo era perfurar um poço exploratório.

Na própria comunicação sobre a licença, a Petrobras explicou que a pesquisa serviria para obter informações geológicas e descobrir se existiam petróleo e gás em escala economicamente aproveitável.

Portanto:

PERFURAÇÃO EXPLORATÓRIA ≠ PRODUÇÃO COMERCIAL

Primeiro é necessário perfurar, coletar dados, analisar rochas e fluidos, compreender o reservatório e determinar se uma eventual descoberta possui volume, qualidade e condições econômicas para desenvolvimento. RAD


ENTÃO VEIO MORPHO

Depois de todo esse caminho, a perfuração finalmente começou.

E em 14 de agosto de 2026, a Petrobras anunciou uma informação que mudou novamente o patamar da discussão:


A PETROBRAS IDENTIFICOU HIDROCARBONETOS NO POÇO MORPHO

Segundo a companhia, a presença de hidrocarbonetos foi identificada durante a perfuração no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá. Agência Petrobras

Isso é extremamente relevante do ponto de vista geológico.

Mas é necessário manter a precisão técnica.

Identificar hidrocarbonetos não significa automaticamente descobrir uma reserva comercial.

Ainda são necessárias avaliações para determinar volumes, características do reservatório e eventual viabilidade econômica.

O que a descoberta fez foi fornecer informações concretas sobre o sistema petrolífero investigado naquela área.


MAS HOUVE UM INCIDENTE DURANTE A PERFURAÇÃO

Em 4 de janeiro de 2026 ocorreu um vazamento de 18,44 m³ de fluido de perfuração, episódio que posteriormente passou a ser citado pelo MPF em suas ações e recursos contra a licença. Ministério Público Federal

Por isso, seria incorreto afirmar que a campanha ocorreu “sem nenhum problema”.

A discussão passou justamente a envolver também a resposta ao incidente, os planos de emergência e a interpretação dos riscos associados à atividade.

Essa informação não diminui a importância do processo anterior de licenciamento. Ela mostra que fiscalização e acompanhamento ambiental continuam necessários mesmo depois da concessão de uma licença.


POR QUE, ENTÃO, O MPF CONTINUA QUESTIONANDO?

Porque Ibama e Ministério Público Federal exercem funções diferentes.

O Ibama é o órgão ambiental federal responsável pelo licenciamento e concedeu a Licença de Operação.

O MPF, por sua vez, contesta judicialmente aspectos desse licenciamento.

Entre os argumentos apresentados pelo Ministério Público estão questionamentos sobre os planos de emergência, modelagens de vazamento, impactos climáticos e cumulativos e a necessidade de consulta e estudos envolvendo povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, extrativistas costeiros e outras comunidades tradicionais. Ministério Público Federal

Em setembro de 2026, o MPF voltou a recorrer ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, o TRF1, buscando suspender atividades de perfuração ou testes no FZA-M-59. Ministério Público Federal

Portanto, existem hoje duas realidades que precisam ser apresentadas simultaneamente:

O IBAMA CONCEDEU A LICENÇA.

E:

O MPF CONTINUA CONTESTANDO JUDICIALMENTE A VALIDADE E O ALCANCE DESSE LICENCIAMENTO.

Uma informação não elimina a outra.


E A HISTÓRIA FICOU AINDA MAIOR: MAIS POÇOS ENTRARAM NA DISCUSSÃO

Outro capítulo surgiu em 2026.

O MPF passou a questionar pedidos relacionados à inclusão de mais três poços no escopo da Licença de Operação nº 1684/2025, além do Morpho.

Em setembro, o Ministério Público afirmou ter solicitado explicações ao Ibama sobre o tamanho e a duração efetivos do projeto, alegando divergências entre informações apresentadas em diferentes documentos. Ministério Público Federal

Isso ampliou o debate.

A questão deixou de envolver apenas:

“É possível perfurar o Morpho?”

E passou também a envolver:

“Qual será o alcance completo da campanha exploratória no FZA-M-59?”


POR QUE A FOZ DO AMAZONAS É TÃO IMPORTANTE?

Porque a Margem Equatorial brasileira é considerada uma das principais novas fronteiras exploratórias do país.

A região ganhou ainda mais atenção depois das grandes descobertas realizadas nos últimos anos na margem equatorial da Guiana e do Suriname.

Mas sem perfuração não é possível simplesmente assumir que o mesmo resultado será encontrado no território brasileiro.

Geologia precisa ser comprovada.

E poços exploratórios existem exatamente para isso.

A descoberta de hidrocarbonetos no Morpho tornou essa discussão ainda mais importante porque agora existem informações obtidas diretamente do subsolo brasileiro naquela área.


O QUE ESTÁ EM JOGO?

Muito mais do que um único poço.

Está em discussão o futuro de uma nova fronteira petrolífera brasileira.

De um lado estão argumentos relacionados a segurança energética, investimentos, desenvolvimento tecnológico, geração de empregos, arrecadação e possibilidade de novas reservas.

Do outro estão preocupações envolvendo biodiversidade, comunidades tradicionais, mudanças climáticas, capacidade de resposta a acidentes e impactos acumulados de uma eventual expansão da atividade petrolífera.

É exatamente por isso que a discussão precisa ser feita com dados, documentos e conhecimento técnico, e não apenas com slogans.


O QUE OS DOCUMENTOS MOSTRAM ATÉ AQUI

O processo começou em 2014. Serviços e Informações do Brasil

O EIA/Rima foi protocolado em 2015 e audiências públicas ocorreram em 2017. Serviços e Informações do Brasil

Em 2023, o Ibama negou a licença. Serviços e Informações do Brasil

O processo continuou.

Em 2025, a Petrobras passou pela Avaliação Pré-Operacional e a APO foi aprovada pelo Ibama. Serviços e Informações do Brasil

Em 20 de outubro de 2025, foi concedida a Licença de Operação para o poço exploratório Morpho. RAD

Em janeiro de 2026, ocorreu o vazamento de 18,44 m³ de fluido de perfuração, posteriormente incorporado aos argumentos do MPF. Ministério Público Federal

Em 14 de agosto de 2026, a Petrobras anunciou a identificação de hidrocarbonetos no Morpho. Agência Petrobras

E em 28 de setembro de 2026, o MPF protocolou novo recurso no TRF1 buscando suspender as atividades no bloco. Ministério Público Federal


O PRÓXIMO CAPÍTULO SERÁ DECISIVO

A história da Foz do Amazonas ainda não terminou.

A descoberta de hidrocarbonetos não significa produção comercial.

A licença concedida pelo Ibama continua sendo alvo de disputas judiciais.

E o alcance da campanha exploratória permanece no centro do debate.

O que já é possível afirmar é que o Morpho se tornou um dos poços exploratórios mais acompanhados da história recente da indústria brasileira.

Foram mais de dez anos entre o início do licenciamento e a autorização para perfurar.

Houve uma negativa.

Houve novas exigências.

Houve testes.

Houve uma licença.

Houve perfuração.

E houve hidrocarbonetos.

Agora, a pergunta que pode definir uma nova etapa da indústria brasileira é:

QUANTO PETRÓLEO E GÁS EXISTE ALI - E ELE PODERÁ SER PRODUZIDO COM SEGURANÇA, VIABILIDADE ECONÔMICA E LICENCIAMENTO AMBIENTAL?

Essa resposta ainda está sendo construída.


E o Mundo Offshore continuará acompanhando cada novo capítulo da Margem Equatorial brasileira.

FONTES E DOCUMENTOS CONSULTADOS

As informações desta reportagem foram apuradas a partir de documentos, comunicados e publicações oficiais das instituições envolvidas no processo de licenciamento, exploração e acompanhamento jurídico do bloco FZA-M-59.

IBAMA — Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
Decisão e documentação sobre o processo de licenciamento ambiental da atividade de perfuração marítima no bloco FZA-M-59, incluindo o indeferimento ocorrido em 2023 e as etapas posteriores do licenciamento.
https://www.gov.br/ibama/

IBAMA — Negativa da licença em 2023
“IBAMA nega licença de perfuração na Bacia da Foz do Amazonas.”
https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/noticias/2023/ibama-nega-licenca-de-perfuracao-na-bacia-da-foz-do-amazonas

PETROBRAS — Licença para perfuração do poço Morpho
Comunicado da Petrobras sobre a obtenção, em 20 de outubro de 2025, da licença ambiental para perfuração exploratória no bloco FZA-M-59.
https://agencia.petrobras.com.br/

PETROBRAS / CVM — Comunicado ao mercado
Documento oficial referente à obtenção da licença ambiental e ao início da perfuração exploratória na Bacia da Foz do Amazonas.
https://www.rad.cvm.gov.br/

MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA — Avaliação Pré-Operacional
Informações oficiais sobre a aprovação da Avaliação Pré-Operacional realizada antes da concessão da licença para perfuração.
https://www.gov.br/mme/

PETROBRAS — Identificação de hidrocarbonetos no poço Morpho
Comunicado da companhia sobre a identificação de hidrocarbonetos em águas profundas na costa do Amapá, divulgado em 14 de agosto de 2026.
https://agencia.petrobras.com.br/

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL — MPF
Documentos, ações e recursos relacionados aos questionamentos ambientais e jurídicos envolvendo a exploração de petróleo no bloco FZA-M-59.
https://www.mpf.mp.br/

MPF — Questionamentos após ocorrência com fluido de perfuração
Publicação oficial referente ao recurso e aos argumentos apresentados pelo Ministério Público Federal após a ocorrência registrada durante a campanha exploratória.
https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/pr-ap/

MPF — Novo recurso relacionado às atividades no FZA-M-59
Informações oficiais sobre recurso apresentado ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região envolvendo as atividades de perfuração na região.
https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/pr-ap/

TRF1 — Tribunal Regional Federal da 1ª Região
Consulta processual e decisões judiciais relacionadas às ações envolvendo o licenciamento e as atividades exploratórias no FZA-M-59.
https://www.trf1.jus.br/

ANP — Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
Informações regulatórias, dados sobre blocos exploratórios e informações referentes à Bacia da Foz do Amazonas e à Margem Equatorial.
https://www.gov.br/anp/


Nota editorial

A exploração do FZA-M-59 envolve processos administrativos e judiciais ainda sujeitos a novas decisões. O Mundo Offshore continuará atualizando esta reportagem à medida que novos documentos oficiais forem publicados.

Última atualização: 1º de outubro de 2026.


Sobre o autor

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Felipe Regiole

Jornalista

Felipe Regiole é colaborador do Mundo Offshore.

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