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Bacia de Pelotas ganha nova campanha sísmica de 11.200 km² e reforça aposta em uma nova fronteira offshore do Brasil

Thelmo Tonini (Amerikano)•
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Bacia de Pelotas ganha nova campanha sísmica de 11.200 km² e reforça aposta em uma nova fronteira offshore do Brasil

TGS e SLB ampliam levantamento 3D no Sul do país enquanto estudos da EPE apontam potencial estimado de até 9,7 bilhões de barris de óleo equivalente recuperável; números ainda representam recursos prospectivos, não reservas comprovadas

A Bacia de Pelotas acaba de ganhar mais um capítulo importante na corrida para entender se o extremo sul da margem brasileira poderá se transformar em uma das próximas grandes fronteiras de petróleo e gás do país.

A TGS, em parceria com a SLB, anunciou em 13 de outubro a segunda fase do levantamento sísmico 3D Pelotas Sul. A nova campanha cobrirá aproximadamente 11.200 km² em águas offshore do Sul do Brasil, utilizando uma embarcação da classe Ramform Titan. A aquisição de dados está prevista para começar ainda em outubro de 2026 e deverá ser concluída entre o segundo e o terceiro trimestre de 2027. TGS

O anúncio ganha ainda mais peso porque acontece poucas semanas depois de a Empresa de Pesquisa Energética divulgar um dos estudos mais completos já realizados sobre a Bacia de Pelotas.

E os números chamam atenção.


EPE estima potencial de 17,9 bilhões de barris de óleo equivalente in place

Em estudo publicado no final de setembro, a EPE avaliou aproximadamente 80 oportunidades exploratórias, classificadas tecnicamente como leads, distribuídas dentro e fora das áreas atualmente concedidas.

A conclusão preliminar aponta para um volume potencial de cerca de 17,9 bilhões de barris de óleo equivalente in place. Aplicando premissas de recuperação adotadas no estudo, a estimativa chega a aproximadamente 9,7 bilhões de barris de óleo equivalente recuperável. EPE

O estudo separa esse potencial em aproximadamente:

  • 3,4 bilhões de barris de petróleo recuperável;
  • 1.006,6 bilhões de metros cúbicos de gás natural recuperável;
  • aproximadamente 9,7 bilhões de barris de óleo equivalente recuperáveis considerando óleo e gás. EPE

É fundamental destacar: esses números não representam reservas comprovadas, descobertas ou campos prontos para desenvolvimento.

A própria EPE alerta que se trata de uma avaliação preliminar de recursos ainda não descobertos, realizada em uma bacia de fronteira, com elevado grau de incerteza geológica e exploratória. Os volumes poderão aumentar, diminuir ou até mesmo não se confirmar à medida que novos dados sísmicos e, principalmente, novos poços forem perfurados. EPE


Mais de 80 mil quilômetros de sísmica já foram estudados

O levantamento da EPE ajuda a dimensionar o esforço que está sendo feito para compreender a geologia da região.

Para produzir a estimativa, técnicos analisaram informações dos nove poços exploratórios offshore já perfurados na bacia, inclusive dados geoquímicos, e reinterpretaram mais de 4.500 linhas sísmicas 2D.

Somadas, essas linhas representam mais de 80 mil quilômetros de dados sísmicos avaliados. EPE

Também foram estudadas unidades sedimentares que vão do Aptiano ao Neógeno, com atenção especial aos sistemas do Cretáceo.

Segundo a EPE, justamente esses intervalos apresentam algumas das maiores prospectividades relativas, principalmente quando comparados com sistemas petrolíferos encontrados na margem africana. EPE


Por que todo mundo fala da Namíbia?

É impossível falar da Bacia de Pelotas atualmente sem mencionar a costa africana.

Brasil e África estiveram unidos no antigo supercontinente Gondwana. A abertura do Oceano Atlântico separou essas margens há dezenas de milhões de anos.

Isso significa que determinadas bacias hoje localizadas em lados opostos do Atlântico compartilham parte de uma história geológica semelhante.

A EPE destaca que a Bacia de Pelotas possui analogias geológicas com a Bacia de Orange, na Namíbia, onde grandes descobertas em águas profundas transformaram a região em uma das áreas exploratórias mais observadas do mundo. EPE

O estudo brasileiro chama atenção para uma coincidência interessante: enquanto Pelotas apresentou uma estimativa de aproximadamente 17,9 bilhões de barris de óleo equivalente in place, estimativas citadas pela EPE para a margem namibiana ficam na ordem de 18 bilhões de barris de óleo equivalente in place. EPE

Isso não significa que o Brasil tenha “outra Namíbia”.

Geologia semelhante não garante o mesmo sistema petrolífero, qualidade de reservatório, maturação de rocha geradora ou acumulação comercial.

Mas explica por que empresas estão dispostas a investir milhões de dólares para obter dados melhores.


Nova sísmica 3D muda o nível de conhecimento da bacia

É exatamente nesse ponto que entra o novo projeto da TGS e da SLB.

Levantamentos sísmicos 3D oferecem uma imagem muito mais detalhada da subsuperfície do que levantamentos regionais mais antigos.

Na prática, o objetivo é enxergar com maior precisão estruturas geológicas que podem aprisionar petróleo e gás.

Segundo a TGS, Pelotas Sul Fase 2 investigará conceitos exploratórios como:

  • sistemas turbidíticos;
  • canais de águas profundas;
  • armadilhas estratigráficas;
  • armadilhas estruturais. TGS

A campanha também cobre áreas já contratadas por empresas e áreas ainda disponíveis, o que significa que os novos dados poderão servir tanto para decisões sobre blocos existentes quanto para futuras rodadas de licitação ou operações de farm-in.

Comunicado oficial da TGS sobre Pelotas Sul Fase 2


A Bacia de Pelotas já virou prioridade exploratória

O interesse não surgiu agora.

Dados da ANP mostram que Pelotas encerrou 2025 com 47 blocos exploratórios sob contrato — o maior número entre todas as bacias marítimas brasileiras naquele momento, à frente de Santos e Foz do Amazonas. Serviços e Informações do Brasil

Esse dado ajuda a mostrar a transformação recente da região.

Durante décadas, Pelotas foi uma bacia praticamente esquecida. Agora reúne blocos de algumas das maiores empresas de petróleo do planeta.

Entre as companhias com exposição exploratória recente estão Chevron, Petrobras, Shell, ExxonMobil, Equinor, Galp e outras empresas que participaram dos ciclos de Oferta Permanente promovidos pela ANP. Serviços e Informações do Brasil

A Chevron, por exemplo, informa atualmente possuir 15 blocos em Pelotas, todos adquiridos no 4º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão. Chevron Brasil

No 5º Ciclo da Oferta Permanente, Petrobras e Petrogal conquistaram mais três blocos na bacia: P-M-1670, P-M-1672 e P-M-1741. A Petrobras possui 70% de participação e a Petrogal, 30%. Serviços e Informações do Brasil


A Petrobras voltou a apostar no extremo sul

A participação da Petrobras nesses três blocos é particularmente significativa.

Durante anos, grande parte da atenção exploratória da estatal esteve concentrada em regiões já conhecidas, principalmente Santos e Campos.

A entrada recente em novos blocos de Pelotas mostra que a companhia também está posicionando seu portfólio para testar novas fronteiras.

Mas existe uma diferença enorme entre adquirir um bloco e descobrir petróleo.

Antes de qualquer produção, ainda podem ser necessárias várias etapas:

interpretação sísmica, definição de prospectos, licenciamento ambiental, contratação de sondas, perfuração exploratória, testes de formação e eventualmente avaliação de uma descoberta.

Só depois disso seria possível discutir declaração de comercialidade e desenvolvimento de um campo.


O detalhe mais impressionante: nenhum poço exploratório é perfurado ali desde 2001

Talvez esse seja um dos pontos mais importantes de toda a história.

Segundo o estudo da EPE, o último poço exploratório perfurado na Bacia de Pelotas ocorreu em 2001. EPE

Ou seja: passaram-se cerca de 25 anos sem um novo teste exploratório offshore capaz de responder definitivamente se os principais conceitos geológicos identificados atualmente realmente contêm petróleo ou gás em volumes comerciais.

Esse é o grande divisor de águas.

A sísmica pode revelar estruturas extremamente promissoras.

Modelos podem estimar bilhões de barris.

Computadores podem reconstruir a história geológica da bacia.

Mas, no final, somente uma sonda perfurando o fundo do oceano poderá confirmar o que existe realmente abaixo das camadas de sedimentos.


Uma bacia gigantesca

A EPE considera em seu estudo uma área de aproximadamente 348 mil km² para a Bacia de Pelotas. EPE

Documentos históricos da ANP já trabalharam com delimitações menores, próximas de 210 mil km² até determinadas cotas batimétricas; a diferença ocorre porque estudos podem adotar limites geológicos e profundidades distintos. Serviços e Informações do Brasil

A bacia se estende por praticamente todo o litoral do Rio Grande do Sul, avança por parte do litoral de Santa Catarina e chega à fronteira marítima com o Uruguai. EPE

Isso ajuda a explicar sua importância estratégica para toda a Região Sul.


O que poderia acontecer se uma descoberta realmente ocorrer?

Uma descoberta comercial significativa poderia criar uma nova cadeia offshore no Sul do Brasil.

Entre as atividades potencialmente demandadas estariam:

sísmica e geofísica; perfuração offshore; logística marítima; helicópteros; embarcações de apoio; bases portuárias; ROVs; sistemas submarinos; fabricação de equipamentos; engenharia; inspeção; manutenção; segurança operacional; e, numa etapa muito posterior, eventualmente FPSOs ou outras unidades de produção.

Esse cenário, porém, depende primeiro da confirmação do sistema petrolífero.

Não existe hoje justificativa técnica para afirmar que Pelotas será “um novo pré-sal”.

Existe, sim, uma combinação inédita de fatores: conhecimento geológico crescente, novas tecnologias sísmicas, estudos oficiais, grandes empresas posicionadas e analogias geológicas com uma das regiões exploratórias mais promissoras do mundo.


O Sul do Brasil pode ganhar uma nova indústria?

Se grandes descobertas forem realizadas no futuro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina poderão ganhar papel muito maior na cadeia nacional de petróleo e gás.

Portos, aeroportos, fornecedores industriais, empresas de manutenção, logística e centros de treinamento poderiam se tornar parte de uma nova base de apoio offshore.

A dimensão disso dependeria da localização das descobertas e da estratégia escolhida pelas operadoras.

A história recente de regiões como Macaé, Santos e Vitória mostra que grandes projetos offshore podem alterar profundamente economias regionais.

Mas Pelotas ainda está no começo desse caminho.


O que acontece agora?

O próximo grande passo será aumentar a qualidade dos dados.

A Fase 2 do projeto Pelotas Sul deverá adquirir 11.200 km² de nova sísmica 3D entre outubro de 2026 e meados de 2027. TGS

Esses dados poderão permitir que as empresas definam com mais precisão os melhores prospectos para perfuração.

Depois disso, o mercado deverá observar três sinais:

  1. solicitações de licenciamento ambiental para perfuração;
  2. contratação ou mobilização de sondas para Pelotas;
  3. anúncio de poços exploratórios pelas operadoras.

Quando esses três movimentos começarem a aparecer, a Bacia de Pelotas terá passado da fase da expectativa geológica para o teste real da indústria.


O Mundo Offshore acompanha

A Bacia de Pelotas reúne hoje alguns ingredientes difíceis de ignorar.

São 11.200 km² de nova sísmica 3D anunciada, 47 blocos exploratórios sob contrato ao fim de 2025 e um estudo oficial indicando potencial preliminar de até 9,7 bilhões de barris de óleo equivalente recuperável. TGS

Mas a informação mais importante continua sendo outra:

ainda é preciso perfurar.

Entre uma imagem sísmica e uma grande descoberta existe um dos processos mais caros, tecnológicos e arriscados da indústria mundial.

É justamente por isso que a Bacia de Pelotas merece ser acompanhada de perto.

Ela ainda não é uma nova província produtora.

Mas provavelmente nunca esteve tão perto de descobrir se pode se tornar uma.


Fontes principais

TGS — Pelotas Sul Phase 2
EPE — Estimativa Volumétrica da Bacia de Pelotas
ANP — Panorama da exploração brasileira em 2025
ANP — contratos do 5º Ciclo da Oferta Permanente
Chevron — portfólio exploratório na Bacia de Pelotas

Sobre o autor

Amerikano
Thelmo Tonini (Amerikano)

Diretor de criação

Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..

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