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A montanha-russa do petróleo: de US$ 55 a mais de US$ 100, guerras e tensões redesenharam o Brent entre 2021 e 2026

Felipe Regiole
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A montanha-russa do petróleo: de US$ 55 a mais de US$ 100, guerras e tensões redesenharam o Brent entre 2021 e 2026

Da retomada pós-pandemia à guerra na Ucrânia, do Mar Vermelho ao Estreito de Hormuz: a trajetória do Brent mostra como oferta, demanda, rotas marítimas e geopolítica transformaram o mercado mundial de energia. Em agosto de 2026, o barril voltou a registrar média acima de US$ 90. Mundo Offshore | Agosto de 2026

Em janeiro de 2021, o petróleo Brent tinha preço médio de US$ 54,77 por barril. Cinco anos e meio depois, o mercado havia atravessado uma sequência extraordinária de choques: reabertura da economia mundial, invasão da Ucrânia pela Rússia, sanções, cortes de produção, guerra no Oriente Médio, ataques a navios no Mar Vermelho e novas tensões envolvendo algumas das rotas energéticas mais importantes do planeta.

A curva de preços conta essa história.

E ela revela algo fundamental: o petróleo não se movimenta apenas por causa das guerras. Produção, estoques, demanda, capacidade de refino, decisões da OPEP+, dólar, juros, logística e expectativas econômicas continuam determinantes. Os conflitos acrescentam outra variável decisiva: o risco de interrupção do abastecimento.


2021 — O mundo reabre e o petróleo volta a subir

A história começa com a recuperação econômica depois do choque provocado pela pandemia.

O Brent saiu de uma média de US$ 54,77 em janeiro de 2021 e alcançou US$ 83,54 em outubro. A média anual ficou em aproximadamente US$ 70,86 por barril.

Era o primeiro grande movimento da nossa linha do tempo: economias reabrindo, mobilidade se recuperando e consumo de energia voltando.

Mas aquilo seria pequeno perto do que aconteceria no ano seguinte.

2022 — A invasão da Ucrânia muda o mercado

Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia iniciou sua invasão em larga escala da Ucrânia.

A importância da Rússia no mercado energético mundial colocou imediatamente petróleo e gás no centro das atenções.

A média mensal do Brent, que havia sido US$ 86,51 em janeiro, saltou para US$ 117,25 em março.

Em junho, chegou a:

US$ 122,71 por barril

Foi a maior média mensal de toda a nossa série 2021–agosto de 2026 até aquele momento. A média de 2022 terminou em aproximadamente US$ 100,93.

Sanções, reorganização dos fluxos comerciais e incertezas sobre a oferta russa transformaram o mapa mundial do petróleo.

2023 — O barril recua, mas a geopolítica não desaparece

Em 2023, os preços se afastaram dos níveis extremos observados em 2022.

A média anual do Brent caiu para aproximadamente US$ 82,49. Mas a tranquilidade era relativa.

Em setembro, a média mensal voltou a US$ 93,72. Em outubro, mês em que o ataque do Hamas a Israel deu início a uma nova guerra, a média ficou em US$ 90,60.

O episódio também mostrou por que precisamos separar risco geopolítico de interrupção física da oferta.

Uma guerra pode aumentar rapidamente o prêmio de risco embutido no petróleo. Para que esse movimento se sustente, porém, o mercado também observa se produção, exportações ou grandes corredores logísticos foram efetivamente comprometidos.

2024 — A guerra chega às rotas marítimas

No fim de 2023 e durante 2024, os ataques a embarcações no Mar Vermelho acrescentaram outro componente à crise energética: a logística.

Navios passaram a evitar a região e utilizar com maior frequência a rota ao redor do Cabo da Boa Esperança.

Segundo a EIA, o fluxo de petróleo e derivados pelo Cabo chegou a 8,7 milhões de barris por dia nos cinco primeiros meses de 2024, ante média de 5,9 milhões b/d em 2023. Contornar a África também pode acrescentar cerca de 15 dias a determinadas viagens entre o Mar Arábico e a Europa.

Isso significa mais distância, combustível, tempo, exposição operacional e custo.

Mesmo diante dessas tensões, o Brent terminou 2024 com média anual próxima de US$ 80,52, demonstrando novamente que geopolítica e fundamentos do mercado atuam simultaneamente.

2025 — Os Estados Unidos quebram outro recorde

Enquanto guerras e rotas marítimas dominavam as manchetes, outra transformação avançava silenciosamente.

Os Estados Unidos continuavam produzindo cada vez mais petróleo.

Em 2025, a produção americana de petróleo bruto atingiu média recorde de aproximadamente 13,6 milhões de barris por dia, superando o recorde global anterior, estabelecido pelos próprios EUA em 2024. A EIA atribui parte importante desse desempenho aos ganhos de produtividade e eficiência nas principais regiões de shale.

Isso é muito importante para nossa narrativa.

O aumento da produção americana ocorreu ao longo de vários anos e atravessou administrações presidenciais diferentes. Portanto, não seria correto explicar toda essa trajetória apenas pelo presidente que ocupava a Casa Branca em determinado momento.

Ao mesmo tempo, o Brent terminou 2025 muito abaixo dos níveis de 2022. Sua média anual ficou em aproximadamente US$ 69,14.

Parecia que o mercado havia entrado em outra fase.

Então chegou 2026.

2026 — A curva explode novamente

É aqui que o gráfico do Mundo Offshore ganha seu momento mais impressionante.

Janeiro:

US$ 66,60

Fevereiro:

US$ 70,89

Março:

US$ 103,13

Abril:

US$ 117,29

Maio:

US$ 107,14

Junho:

US$ 85,40

Julho:

US$ 83,76

Agosto:

US$ 91,08

Todos esses números são médias mensais oficiais do Brent publicadas pela EIA.

Entre a média de janeiro e a de abril, portanto, o Brent avançou cerca de 76% em apenas três meses.

E a média mensal ainda esconde a violência dos movimentos ocorridos dentro de cada mês.

Hormuz volta para o centro do mundo

Existe uma razão para o mercado acompanhar tão atentamente qualquer ameaça ao Estreito de Hormuz.

Em 2024, aproximadamente 20,7 milhões de barris por dia de petróleo e líquidos atravessaram Hormuz. No primeiro semestre de 2025, foram cerca de 20,9 milhões b/d.

Isso representa aproximadamente um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo.

É por isso que um mapa tão pequeno pode provocar movimentos tão grandes em um gráfico de petróleo.

Hormuz conecta produtores fundamentais do Golfo Pérsico aos mercados internacionais. Quando cresce a percepção de risco nessa região, traders passam a calcular não somente quanto petróleo existe, mas também quanto desse petróleo conseguirá chegar ao mercado.

O gráfico explica algo maior que o preço

Quando colocamos janeiro de 2021 e agosto de 2026 na mesma tela, aparece uma história extraordinária:

US$ 54,77 → US$ 122,71 → US$ 64,45 → US$ 117,29 → US$ 91,08.

Não existe uma única explicação para essa montanha-russa.

Existe uma combinação de oferta + demanda + produção americana + OPEP+ + economia mundial + estoques + juros + sanções + guerras + logística + rotas marítimas.

É exatamente isso que torna o petróleo diferente de quase qualquer outra commodity.

Ele é matéria-prima.

É combustível.

É receita para governos.

É custo para empresas.

É logística.

E também é geopolítica.

E o Brasil?

Para o Brasil, essas oscilações possuem duas faces.

Como grande produtor e exportador de petróleo, preços internacionais elevados podem favorecer receitas associadas à produção, dependendo de custos, câmbio, contratos e estratégias comerciais das empresas.

Mas o país também está conectado ao mercado internacional de derivados.

Por isso, petróleo mais caro pode aumentar pressões sobre diesel, combustíveis importados, transporte, fretes e cadeias industriais — ainda que o repasse ao consumidor brasileiro não seja automático nem necessariamente proporcional ao movimento do Brent.

É justamente aí que a história mundial encontra o cotidiano brasileiro.

De US$ 54,77 a US$ 91,08

Nossa linha do tempo termina, por enquanto, em agosto de 2026.

O Brent começou 2021 em uma média mensal de US$ 54,77.

Passou pela guerra na Ucrânia.

Pelos cortes da OPEP+.

Pela guerra no Oriente Médio.

Pelo Mar Vermelho.

Pelo crescimento recorde da produção americana.

E chegou a agosto de 2026 em US$ 91,08 por barril, depois de ter registrado média superior a US$ 117 apenas quatro meses antes.

Essa talvez seja a mensagem central desta reportagem:

o preço do petróleo é um gráfico da economia mundial — mas também é um gráfico da história.

Sobre o autor

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Felipe Regiole

Jornalista

Felipe Regiole é colaborador do Mundo Offshore.

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